O declínio dos likes: métricas que importam de verdade
Durante muito tempo, os likes dominaram o universo digital. Eram símbolo de status, popularidade e, em muitos casos, moeda de troca no mercado de influenciadores. A lógica parece simples: quanto mais curtidas uma publicação tinha, mais relevante era o conteúdo e mais atraente se tornava para marcas e parceiros. Mas o tempo mostrou que essa métrica, apesar de sedutora, é limitada e superficial. Hoje, o cenário mudou: likes já não bastam para medir o real impacto de um criador, de uma campanha ou até mesmo da presença de uma marca nas redes sociais.
As próprias plataformas perceberam a fragilidade do “reinado das curtidas”. O Instagram, em 2019, chegou a ocultar o número público de likes em alguns países, alegando preocupação com a saúde mental dos usuários e incentivando criadores a focarem em conteúdo de valor. O TikTok, por sua vez, consolidou um modelo de distribuição baseado em retenção: quanto mais tempo o vídeo mantém o espectador assistindo, maior a chance de ser recomendado. O YouTube reforça a mesma lógica ao priorizar o “watchtime” — tempo total assistido — em detrimento de métricas superficiais.
Esse movimento reflete uma realidade clara: curtidas são fáceis de inflar, mas difíceis de traduzir em resultados concretos. É possível comprar pacotes de likes falsos ou recebê-los de forma automática, sem que exista qualquer interesse genuíno no conteúdo. Já métricas como tempo de visualização, compartilhamentos, salvamentos, taxa de cliques (CTR) e até mesmo o engajamento em comentários revelam algo mais profundo: se a mensagem realmente prendeu a atenção, gerou reflexão ou motivou uma ação prática.
No marketing digital, essa transformação é decisiva. Imagine duas campanhas: uma publicação com 50 mil curtidas, mas que gera apenas algumas visitas ao site, e outra com 5 mil curtidas, mas que resulta em centenas de cadastros, vendas ou downloads. Qual delas teve mais impacto? A resposta é óbvia — e mostra como o valor real está em indicadores de conversão e não na popularidade aparente. Empresas e agências hoje analisam métricas como CPA (custo por aquisição), ROI (retorno sobre investimento) e LTV (lifetime value do cliente) para medir resultados, deixando os likes em segundo plano.
Para influenciadores, o cenário também se redesenhou. Marcas já não se impressionam apenas com números inflados; buscam criadores que tenham audiências leais e engajadas. Um perfil com 20 mil seguidores altamente ativos pode gerar mais retorno que outro com 200 mil seguidores passivos. Parcerias sólidas são cada vez mais fundamentadas em relatórios que mostram taxa de engajamento real, tempo médio de visualização, número de compartilhamentos e até a qualidade dos comentários recebidos. A autenticidade e a construção de comunidade se tornaram os verdadeiros diferenciais competitivos.
Outro ponto essencial nesse declínio dos likes é o impacto sobre a saúde mental. Durante anos, muitos criadores e usuários comuns passaram a associar autoestima e sucesso pessoal à quantidade de curtidas que recebiam. A frustração diante de números baixos gerava ansiedade, comparações e até abandono de projetos criativos. Com o deslocamento do foco para métricas qualitativas, abre-se espaço para uma relação mais saudável com as redes sociais, onde a prioridade passa a ser criar conteúdo que inspire, eduque ou entretenha de forma genuína.
Ainda assim, é importante destacar: os likes não desapareceram e não perderam totalmente o valor. Eles continuam sendo um indicador inicial de aceitação e podem ajudar a medir a primeira impressão de um post. Porém, sozinhos, já não sustentam relatórios de performance nem definem estratégias de longo prazo. Hoje, eles funcionam como complemento dentro de uma análise mais ampla.
O futuro aponta para uma era de métricas mais profundas e qualitativas. Além do engajamento visível, ferramentas de análise já avaliam o sentimento dos comentários, ou seja, se as interações foram positivas, negativas ou neutras. Outro indicador em ascensão é a taxa de retenção em segundos-chave, especialmente em vídeos curtos. Se grande parte da audiência abandona um vídeo nos primeiros cinco segundos, pouco importa a quantidade de likes: o conteúdo não cumpriu seu papel. Da mesma forma, a expansão de relatórios sobre alcance orgânico versus pago ajuda a diferenciar se o conteúdo cresceu pela relevância ou apenas pelo investimento financeiro.
Nesse contexto, tanto marcas quanto criadores precisam repensar estratégias. Curtidas podem alimentar o ego, mas não garantem vendas, reputação ou fidelidade. O que constrói relevância é a soma de elementos como consistência, autenticidade, impacto real na vida do público e capacidade de gerar conversas. A era dos números vazios está chegando ao fim, e quem insistir em medir sucesso apenas por likes corre o risco de ficar para trás. Baixar video Instagram
Em resumo, o declínio dos likes não significa o fim da interação digital, mas sim uma evolução necessária. Estamos passando de uma lógica de quantidade para uma lógica de qualidade. O futuro das redes sociais será medido não por quantos clicaram em um coração, mas por quantos realmente se importaram, dedicaram tempo e foram impactados. E essa talvez seja a métrica mais importante de todas.
Por Izabelly Mendes



