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Seca severa na Arábia antiga pode ter contribuído para surgimento do Islã

Seca severa na Arábia antiga pode ter contribuído para surgimento do Islã
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(FOLHAPRESS) – Um período de seca severa que pode ter se arrastado por décadas, culminando com a destruição do principal reino da Arábia durante a Antiguidade, pode ter sido um dos fatores-chave por trás das origens do Islã, afirma um novo estudo. A desarticulação política e econômica trazida pelo evento climático teria aberto espaço para que o movimento religioso criado por Maomé se tornasse dominante na região.

Os dados que ancoram a hipótese estão em artigo na última edição do periódico especializado americano Science. Pesquisadores liderados pelo geoquímico Dominik Fleitmann, da Universidade da Basileia, na Suíça, e pelo historiador John Haldon, da Universidade Princeton (EUA), obtiveram informações detalhadas sobre os vaivéns do clima árabe ao longo dos séculos a partir de uma estalagmite.

A estrutura, que é uma projeção que surge no chão de cavernas por causa da ação da água em rochas calcárias, foi achada na gruta de Hoti, que fica no sultanato de Omã (ou seja, no sudeste da península Arábica).

Como o processo de formação das estalagmites costuma ser muito lento e constante, elas podem funcionar como uma espécie de cápsula do tempo, armazenando em sua composição química as características ambientais que prevaleceram ao longo de séculos e milênios. No caso da estrutura encontrada na gruta de Hoti, por exemplo, os pesquisadores calculam uma taxa de crescimento em torno de 0,23 milímetro por ano. Além disso, a formação rochosa também carrega variantes radioativas de elementos químicos, as quais se transformam em outros elementos a uma taxa conhecida. Isso equivale a um “tique-taque” constante o suficiente para datar com precisão a idade de cada pedaço da estalagmite.

Os registros climáticos da caverna, que se estendem pelos últimos 2.600 anos, indicam que a região passou pela pior seca de todo esse período entre os anos 500 e 530 da Era Cristã, cerca de 50 anos antes do nascimento de Maomé.

“O registro de Oman normalmente vale para todo o sul da Arábia, no mínimo, mas temos outras indicações de um efeito mais amplo na península toda e em outras regiões do Mediterrâneo Oriental. Tudo indica que foi um fenômeno de larga escala e com duração de vários anos”, disse Fleitmann à Folha em entrevista por videoconferência.

“As condições claramente ficaram mais secas que as atuais” –claro, uma péssima notícia para a população da época, considerando o pouco que chove na região ainda hoje. Segundo ele, as causas do fenômeno ainda não estão claras– pode ter sido uma simples flutuação de médio prazo no clima, por exemplo.

A datação da estalagmite é sugestiva porque coincide com os eventos que levaram à destruição do reino de Himyar, que tinha surgido séculos antes no atual Iêmen e, até essa época, funcionava como a potência hegemônica no território árabe.
“Em seu apogeu, Himyar exercia influência substancial sobre a região sul e central da Arábia, e seu poder se irradiava também para o Hejaz [onde ficam as cidades de Meca e Medina, centros de origem do Islã]”, explica Haldon. “Está claro que essas regiões eram importantes para Himyar política e economicamente, e vice-versa.”

Himyar fortaleceu seu poderio ao longo dos séculos atuando como um centro do comércio de especiarias e artigos de luxo (em especial produtos aromáticos de origem vegetal, como o incenso e a mirra, citados na Bíblia). Por causa de sua posição geográfica, o reino também tinha papel de intermediário entre os mercadores da atual Etiópia, o Império Romano do Oriente e o Império Persa (no atual Irã). E as chuvas que a região recebia, tanto do Mediterrâneo quanto do oceano Índico (as chamadas monções), eram suficientes para que houvesse considerável desenvolvimento agrícola, com a construção de represas e canais de irrigação.

Tudo isso significa que Himyar estava bastante conectado à evolução política e cultural do mundo antigo. Nos séculos anteriores à grande seca, o elemento mais importante dessa evolução foi o fortalecimento do cristianismo, adotado como religião oficial do Império Romano e do reino etíope de Axum algumas décadas antes de 400 d.C. Missionários e diplomatas ligados à nova fé começaram a exercer sua influência em Himyar, mas a elite do reino, aparentemente com o objetivo de não ficar atrelada politicamente às potências cristãs, decidiu se converter ao judaísmo.

No entanto, os cristãos etíopes de Axum acabaram invadindo Himyar e transformando o reino num Estado vassalo no ano 525. Himyar nunca conseguiu se reerguer depois disso, deixando de existir por volta do ano 570. A hipótese da nova pesquisa é que a seca fragilizou Himyar de forma irreversível, e que o fim dessa hegemonia teria aberto espaço para o fortalecimento de outros polos de poder na Arábia, como o centro de comércio e peregrinação de Meca, lar do clã no qual nasceu Maomé.

“É preciso levar em conta que é uma região que normalmente já é muito frágil e marginal para a agricultura. Então, perturbações climáticas nessa escala são capazes de provocar uma desagregação econômica e social difícil de consertar”, diz Fleitmann. “Não é um processo imediato, mas parece ter sido algo que se estendeu ao longo desse século, criando um vácuo que foi sendo preenchido”, completa o pesquisador, que é responsável por uma disciplina sobre a relação entre o clima e eventos históricos na universidade em que leciona

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